No início do século XX o Grande ABC, na região metropolitana de São Paulo, despontava como um grande polo da indústria automotiva. Até o início dos anos 90, quase que a totalidade das montadoras do país estavam instaladas na região que, atualmente, ainda comporta cinco fábricas das maiores montadoras de veículos do mundo dentro de um raio de 8km – número que, num passado bastante recente, antes do fechamento das fábricas da Ford no Brasil, chegou a ser seis – além das incontáveis indústrias de autopeças.
Para se ter uma ideia, a fábrica da General Motors em São Caetano do Sul foi inaugurada em 1929 – posteriormente fechada devido à segunda guerra mundial, e depois reaberta – e a fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, inaugurada em 1959, foi a primeira fábrica da marca a ser construída fora da Alemanha.
Com esta demanda, foram criados cursos de engenharia voltados para este mercado. Mais especificamente a engenharia mecânica automobilística, ou automotiva. Algumas faculdades e centros universitários foram pioneiros no Brasil no ensino desta modalidade, oferecendo esta especialização desde 1963.
Atualmente mais de vinte universidades que oferecem esta especialização apenas na região da grande São Paulo, entre cursos de graduação e pós-graduação. Além disso, esta permanece sendo uma das engenharias que mais possuem absorção no mercado de trabalho.
Porém estamos vivendo um grande advento no mercado de veículos e meios de transporte: a eletrificação. Por mais que já seja uma tecnologia utilizada há tempos na indústria em equipamentos como transportadores, empilhadeiras e rebocadores, estamos agora à beira de uma possível extinção, ou ao menos uma redução drástica de utilização do motor à combustão para automóveis e veículos automotores.

Sabemos que para o veículo elétrico continuarão sendo primordiais o ensino de disciplinas como elementos finitos, mecânica dos fluidos, fenômenos de transporte, entre outros; porém algumas disciplinas como “Motores e Propulsão” e “Transmissão” tendem a se tornarem obsoletas nesta área. Da mesma forma como uma abordagem mais profunda de motores elétricos e baterias passa e se tornar mais aplicável ao mercado.
Obviamente esta obsolescência não se tornará realidade da noite para o dia, porém mais e mais as grandes fabricantes de veículos do mundo têm abandonado o desenvolvimento de novas tecnologias para motores à combustão e focado seus departamentos de pesquisa e desenvolvimento na inovação e avanço tecnológico dos propulsores elétricos.
O objetivo não é, de forma alguma, sugerir a extinção do ensino de motores e transmissão dentro da engenharia. O questionamento sugerido é: para o curso de engenharia mecânica com ênfase em automobilística ainda vale a pena abordarmos tão profundamente os motores à combustão e transmissões? Ou já é o momento de revermos este conceito e abordarmos estas disciplinas de uma forma mais abrangente, mesma forma que são abordadas em um cursos como engenharia mecânica com ênfase em mecatrônica ou ênfase em produção e abordarmos os conceitos adotados em veículos elétricos mais profundamente?
Existem dois cenários possíveis para este mercado. Em um primeiro e mais óbvio as indústrias automotivas abandonam de vez o desenvolvimento de motores a combustão. Em um segundo, os chamados mercados emergentes, como Índia, África do Sul, Brasil, México, entre outros – que sabemos que possuirão maior dificuldade na criação de rede de carregamento de veículos, por exemplo – assumirão o protagonismo no desenvolvimento dos motores à combustão e liderarão as pesquisas e desenvolvimentos destes modelos de propulsores.
Hoje, mais do que nunca, se faz necessário que as instituições de ensino estejam atentas aos movimentos do mercado para que possam adequar rapidamente suas disciplinas e continuem a suprir a demanda de profissionais que este mercado necessita.



