Recentemente, a mídia impressa e especializada, noticiou um acordo de cooperação tecnológica entre a VW e a fabricante chinesa de veículos XPENG.
Essa cooperação está focada majoritariamente em tecnologia inteligente e arquitetura elétrica/ eletrônica (arquitetura E/E) proveniente do SUV G9 da XPENG. A XPENG não será fornecedora primaria de software inteligente, mas venderá a arquitetura E/E, pacotes de soluções de software e hardware inteligentes para a Volkswagen. Nos anos seguintes, a XPENG deve receber taxas de serviço técnico e, assim que a produção dos dois modelos começar em 2026, a fabricante chinesa de veículos elétricos receberá parte do lucro por cada unidade vendida, mostram registros de reuniões obtidos pela mídia chinesa.
Mas antes de entrarmos um pouco mais detalhes sobre essa cooperação e sobre a própria XPENG, essa desconhecida, é importante entender o que motiva esse movimento da gigante Volkswagen.
A China é o maior mercado de veículos do mundo, o que desperta o interesse de muitas empresas em poder explorar esse mercado.
Entretanto, a que se atentar as questões culturais antes de se aventurar. Gostos e costumes precisam observados, bem como suas alternâncias geracionais.
Em se tratando de China, devido a sua enorme população e demanda por produtos, essa observação tem um caráter de escala considerável.
A China, apesar de sua história milenar, é um país novo em termos de consumo. Ha coisa de 30 anos atrás não se viam carros nas ruas como se veem hoje, nem de longe.
O aumento do poder econômico do chinês trouxe a possibilidade de ter um veículo – estamos falando de uma população de mais de 1 bilhão de habitantes.
Apesar das questões culturais orientais, o que sempre esteve disponível foi o padrão ocidental dos veículos, com seus formatos, cores, confortos e acabamentos.
Com o decorrer dos anos, os desejos dos clientes chineses começaram a fazer parte do portfólio das empresas ocidentais. Muitas dessas empresas já instaladas em território chinês como Joint Venture de empresas nacionais.
Isso facilitou o início das chamadas customizações ou adaptações ao mercado.
Um grande exemplo dessa adaptação foi o aumento do entre eixos dos veículos, sobretudo de veículos premium. Isso motivado inicialmente por um detalhe bem peculiar, visto a maneira que o chines entrava no veículo, demandando mais espaço para literalmente “andar” e depois se sentar no banco traseiro.
Claro que o espaço entre as pernas trouxe um conforto, que seria interessante também ter no ocidente, mas aqui foi e é uma demanda geral.
O que então falar dos outros aspectos como cores e acabamentos.
Vivi na China por 3 anos de 2016 a 2018. Nesse período pude ver nas ruas de diversas cidades e províncias, veículos de todas as cores possíveis e imagináveis. Cores essas talvez impraticáveis para o gosto ocidental.
Falos de veículos de todas as classes e valores, ou seja, desde, por exemplo, um Golf geração 4 até um Mercedes-Benz Maybach zero km.
Ha quem faça envelopamento. Avistar um Bentley completamente pink como a foto abaixo não é uma rara exceção!

Existem veículos com tanto LED aplicado que parecem uma árvore de Natal, dentro e fora.
Toda essa curta dissertação tenta ilustrar um pouco os desejos de um mercado, sem juízo de valores.
Estou agora em minha segunda expatriação e observo outro efeito. A enorme quantidade de veículos chineses para um mercado premium.
Todos conhecem os chineses pela velocidade que conseguem construir coisas. Isso foi bastante divulgado durante a COVID-19, com aquelas construções de hospitais em tempo recorde.
Pois bem, essa velocidade chegou rapidamente ao mundo automotivo, sobretudo a eletrificação. Empresas start-ups despontam agora como grandes desenvolvedoras de tecnologia, trazendo ao mercado produtos interessantes.
E agora chegamos ao ponto dessa matéria.
Essas empresas locais, com estruturas simples e de alta competência, conseguem ser altamente eficientes no desenvolvimento, trazendo ao mercado soluções tecnológicas avançadas e, o mais importante, soluções que o mercado chines quer consumir.
Você compraria um carro que tem karaokê? Muitos responderiam essa pergunta com outra pergunta. Para quê?
Pois esse feature já é possível ser adquirido em veículos no mercado chinês.
A China já não é mais conhecida por apenas “copiar coisas”. A presença de inúmeras empresas multinacionais, o contato com essas tecnologias de vanguarda, o investimento massivo em capacitação intelectual, trouxeram as condições ideais para o desenvolvimento tecnológico.
Lembramos que Inteligência Artificial da China é uma das mais evoluídas no mundo. Como a China monitora quase tudo o que a população faz, a quantidade de dados coletados para alimentar os algoritmos é incomparável. Isso significa em um aprendizado mais rápido e assertivo dessa inteligencia.
As metas de descarbonização estabelecidas impulsionam cada vez mais a urgência no desenvolvimento de veículos elétricos, não só na sua produção, mas também na cadeia de suprimentos. Dentre estes suprimentos, destaco a produção de baterias… esse será o assunto para uma próxima matéria desse blog.
Empresas automotivas tradicionalmente chinesas focam seus esforços nesse sentido, sendo agora pressionadas pelo advento de empresas jovens no setor. Destacamos nomes como NIO, LI AUTO e a própria XPENG.
A XPENG foi fundada em 2015… isso mesmo 2015. Seu primeiro produto a ser produzido foi o modelo G3 no final de 2018 em uma plataforma própria desenvolvida batizada de “David”.
Este veiculo já nasce com tecnologia de direção autônoma, uma vez que seus fundadores tinham como objetivo criar uma “Tesla Chinesa”.
A XPENG possui outros elétricos para outros segmentos, tais como o P7 e o G9, modelo este motivador dessa matéria.



A ideia aqui não é fazer qualquer propaganda dos produtos da XPENG ou de qualquer empresa, mas sim trazer o contexto que provavelmente trouxa a VW para esta aproximação.
Digo provavelmente, pois não tenho acesso às estratégias da VW. Então seria leviano jurar qualquer verdade.
Entretanto, é possível traçar o panorama visto todas as declarações, publicações e o contexto histórico para entender o que esta ocorrendo.
Esta muito claro que a VW precisa se aproximar dos mercados nas regiões em que atua. Cada região pede um aproach de produtos diferentes entre eles.
Desta forma é fundamental usar o entendimento local para esse desenvolvimento e oferta de produtos.
A rapidez com que essas empresas menores e locais operam é incomparável aos de estruturas como VW e outras grandes empresas.
Somamos também a isso algo no perfil da estrutura da XPENG. Cerca de 40% do efetivo é de R&D.
Para mim isso significa criação e evolução constante.
A plataforma utilizada no G9, essa agora batizada de “Eduard”, traz várias inovações que poderão incorporar os dois novos modelos prometidos para 2026.
O trem de força do carro usa a primeira plataforma de carboneto de silício (SiC) de produção em massa de 800 V da China, autonomia de 700Km e incorpora o primeiro ADAS (advanced driver assistance systems) completo da indústria. Com 31 sensores Lidar, dois chips de direção assistida inteligente NVIDIA DRIVE Orin-X e arquitetura de comunicação Gigabit Ethernet, o G9 tem até 508 TOPS (Tera Operations per Second) de poder de computação.
Acredito que essas alianças de parceria tecnológica serão uma tendência daqui para a frente. Neste trend é o cliente o maior beneficiado.
Com esta aliança, sinal de reconhecimento de competência que às vezes o outro pode fazer melhor do que eu, eu fecho com uma tira da da música Hey You do Pink Floyd:
Hey you
Don’t tell me there’s no hope at all
Together we stand
Divided we fall
(We fall, we fall, we fall, we fall, we fall, we fall)



